Entrevista a Robin Wood

 

    Robin Wood é uma das artistas mais reconhecidas no mundo do Tarot. Criadora do auto-intitulado “Robin Wood Tarot”, Robin foi também ilustradora de muitos dos livros de Wicca de Scott Cunningham.

    Ela própria Wicca, o seu baralho revela a experiência mundana para elevar o leitor através da arte esotérica de Wicca no seu baralho. Uma artista talentosa, os seus talentos vão para além dos desenhos a caneta e tinta, visto ter agora disponível arte computorizada muito bonita na sua página da internet.

Vamos começar por falar do seu baralho de Tarot. É um bonito resultado do seu trabalho artístico. Quando é que foi a sua primeira experiência com o Tarot e em que circunstâncias ocorreu?

Obrigado. Reparei pela primeira vez no Tarot em Okinawa, no Japão, em 1980. Estava lá como esposa de um militar e estava a começar a estudar Wicca. Queria alargar os meus horizontes e desejava coisas esotéricas; mas lá não havia muita coisa disponível. No entanto encontrei um baralho Rider-Waite e o livro de Eden Grey a acompanhar e comecei a explorar.

 

O seu trabalho tem um toque de uma determinada época, digamos os anos 70, ou pelo menos finais dos anos 60. Para aqueles que não estavam por cá nessa altura (quem me dera ser um deles * risos *), quando começou a trabalhar na criação do Robin Wood Tarot e porquê?

Acha que sim? Nunca tinha ouvido nada do género antes. Comecei a trabalhar no meu baralho em 1980, quase na mesma altura em que vi pela primeira vez o Rider-Waite. Não gostei da arte desse baralho e não me relacionava com a maioria do simbolismo e pensei que as cores eram demasiado sombrias. Portanto comecei a imaginar os meus próprios símbolos e cores no baralho. Não tardou muito para começar a pintar os desenhos que imaginava num baralho em branco que mandei vir dos Estados Unidos. Mandei algumas fotocópias de volta aos meus amigos e vários disseram que queriam o meu baralho.

Tendo em conta que não tinha esperanças de poder pagar as diferentes cores, e como pensava que iria ser só para um pequeno grupo de amigos, decidi fazer desenhos a preto e branco em vez de quadros pequeninos, e deixar as pessoas que quisessem o baralho colori-lo elas próprias. De facto, acabei por vender várias centenas de livros para colorir dos Arcanos Maiores (apesar de um certo número de cartas se terem desenvolvido depois disso) e mais algumas centenas de baralhos a preto e branco mais completos com os desenhos finais.

Quando vendi o baralho à Llewellyn, enviei-lhes uma pintura do Louco e também a versão a preto e branco com lápis para colorir, para poderem escolher. Disse-lhes, no entanto, que preferia a versão a preto e branco, por causa da facilidade em reproduzir livros e outros artigos a preto e branco. E é claro que foi com isso que eles também concordaram.

 

Isto leva-nos a Scott Cunningham. Você fez as ilustrações da maior parte dos seus livros. Pode dizer-nos um pouco mais da sua relação profissional com Scott Cunningham, como se tornou ilustradora dos seus livros, etc.?

Isso foi obra da Llewellyn. Terry Buske, que era directora de arte na altura, deu-me o interior de Magical Herbalism do Scott para fazer de novo, e gostou do estilo “faux nouveau” que usei para ele. Eventualmente acabei por fazer a maior parte dos seus livros, tal como disse.

Normalmente não existe qualquer relação entre um autor e o artista que é encarregado pela editora para trabalhar nos livros daquele autor. Lembrem-se que do ponto de vista da editora os artistas fazem apenas parte do pacote.

No entanto, neste caso acabei por conhecer Scott pelo telefone e tornamo-nos amigos. Nessa altura já eu ilustrava livros dele há alguns anos. Mas não me lembro de termos falado muito sobre as ilustrações. Isso era trabalho da Terry e ela era muito, muito boa nisso. Scott e eu falámos de tudo o resto, como fazem os amigos.

O único trabalho “profissional” que fiz com Scott foi o Magical Almanac em 1993. Nesse ano Scott e Raymond Buckland escreveram artigos para o almanaque e eu decorei-o, escrevi bocados para preencher espaços e fiz o esboço em Quark. Para esse projecto nós telefonávamos um ao outro, trocámos ideias e colaborámos. Foi divertido apesar de, nessa altura, já a sua saúde estar a falhar.

De facto, já que estamos a falar do Scott, tenho de dizer que a última conversa que tive com ele foi umas semanas antes de morrer. Estávamos a falar do que ambos estávamos a fazer e ele disse-me que não fazia ideia do que havia de escrever a seguir. Disse-me que já tinha dito tudo o que queria dizer. Conforto-me com isso; ainda sinto a falta dele.

 

A sua experiência em Wicca influencia bastante o seu baralho de Tarot e a sua arte. Quando e como se iniciou na tradição Wicca?

Para mim, assim como para muitos outros, descobrir a Wicca foi como voltar para casa. Tudo aquilo que sempre pensei e em que acreditei, lá no fundo, estão expressos nesta fé.

Fui criada como Plymouth Brethren (uma facção cristã muito restrita). Fui apresentada à Wicca pelo que é agora meu ex-marido, em 1979. Ele tinha mantido a sua religião em segredo; ia-me só dizendo bocados e partes. Depois acabou por me dizer que estava num coventículo. Foi um abalo enorme.

Mas apercebi-me de imediato que, se ele era um bruxo, então os bruxos não podiam ser aquilo que eu tinha sido criada a pensar que eram. Então caminhei até um campo e rezei a Jesus, perguntando se ainda era a sua criança. A resposta que recebi foi a do costume: nada.

Depois rezei à Senhora e perguntei se era a sua criança. E senti o Universo a abraçar-me. Não há outra forma de o descrever. Fiquei instantaneamente envolvida num tal amor, conforto e alegria que me desmanchei em lágrimas. Nunca mais olhei para trás.

Fui iniciada pelo meu ex um ano e meio depois. Naquela altura estávamos casados e a viver em Okinawa, como referi anteriormente. Quando voltámos para os Estados Unidos, juntámo-nos a um grupo e recebi mais treino. De facto ao longo dos anos, pertenci a vários grupos de várias tradições e aprendi bastante de todos eles. A tradição que praticamos agora é ecléctica.

 

Esta pergunta é sobre algo que intriga muitos dos nossos leitores. Porque é que a maioria das personagens nas suas cartas de Tarot são louras?

A resposta mais simples é que elas não são a maioria, a não ser que a sua definição de “louro” seja diferente da minha. Existem 84 personagens com o cabelo visível no meu baralho. 28 são loiras, 10 são ruivas, 27 têm cabelo castanho, 14 têm cabelo preto e 5 têm cabelo grisalho ou branco.

A não ser que considere um terço a maioria, então a maioria não tem o cabelo louro.

No entanto tinha várias coisas em mente quando desenhei o baralho. Lembrem-se de que não há nada nas cartas que não seja simbólico de alguma maneira. Quando estava a trabalhar nos Arcanos Maiores, usei a cor do cabelo como indicador de dualidade. As personagens com cabelo escuro são aquelas cuja mensagem ou conhecimento é secreto ou está escondido; aquelas que mostram as forças da Lua em funcionamento. As personagens com o cabelo claro são aquelas cuja mensagem ou conhecimento é revelado ou aberto; estão ligadas ao Sol. É assim que o meu cérebro funciona, com trocadilhos visuais. Cabelos claros para conhecimento revelado. Cabelos escuros para conhecimento escondido. Cabelos ruivos para força de vontade e temperamentos fogosos. Cabelos brancos ou cinzentos para os anos passados a fazer o que quer que a pessoa tenha feito.

Por isso, por exemplo, temos o Mago e a Papisa com o cabelo escuro, para mostrar que a sua sabedoria é esotérica e mística. Depois temos o Sol e o Louco com o cabelo claro, para mostrar que a deles está completamente disponível; o que está à mostra é o que têm. O Enforcado tem o cabelo claro porque ele revela as coisas de um ponto de vista diferente. Esse tipo de coisas.

A única excepção é a Estrela. Pensei em dar-lhe cabelo escuro, para mostrar que ela é parte da noite. Mas sentia que estava errada. Ela tinha de ter o cabelo louro, para poder brilhar o mais possível. Por isso fi-lo assim.

Ao trabalhar com as Menores, mantive mais ou menos a cor tradicional para os naipes. Espadas com cabelo escuro e olhos claros, Paus com cabelo louro ou ruivo e olhos escuros, Copas com cabelo claro e olhos claros, e Ouros com cabelo escuro e olhos escuros. É claro que não se consegue ver bem a cor dos olhos, mas estão lá.

As excepções nas Menores são cartas em que decidi que a parte escondida/revelada era mais importante que a cor do naipe; por exemplo o 2 de Copas, onde quis mostrar a dualidade.

Nunca me ocorreu que houvesse pessoas que pudessem ficar ofendidas com a cor do cabelo que escolho para as personagens. Parece-me um pouco ridículo. Se não gostam do baralho porque acham que demasiadas personagens são louras, então não o comprem. Há muitos baralhos por onde escolher.

Estou habituada a ver louros por todo o lado. E lembrem-se que vivo mesmo ao pé de Detroit. Muitos desses cabelos louros são de Afro-Americanos. A cor do cabelo, nesta altura, é uma questão de escolha.

 

Fez uma mudança óbvia nas Arcanas Menores, onde as Espadas são Fogo e Paus são Ar. Podia explicar-nos isto e como se relaciona com o seu baralho?

Não é uma mudança. O baralho Rider-Waite e muitos, muitos outros usam também essa analogia. Na verdade, há tantos baralhos desta maneira que nem tinha consciência, quando comecei a trabalhar neste baralho pela primeira vez, que havia algum baralho que usasse o sistema Paus/Ar, Espadas/Fogo.

 Isso foi-me realçado por um amigo assim que cheguei ao Estados Unidos e comecei a mostrar os primeiros desenhos para os reis, damas, valetes e princesas. Ele disse-me que muitos baralhos estavam “errados” e ensinou-me a fazer as cartas da maneira “certa”, usando Paus/Ar, Espadas/Fogo. A sua lógica era que os Paus ardem no fogo (pensei que tinha parte da razão).

Pensei e meditei durante bastante tempo neste tópico e li tudo o que pude encontrar sobre a controvérsia. Os argumentos para ambos os lados os lados pareciam válidos. Finalmente cheguei à conclusão que, lá no fundo, estava a fazer as cartas para mim (na altura não fazia ideia de que ele iria ser publicado). Tenho problemas de pulmões desde pequena e às vezes dói-me ao respirar. Dói como se fossem facas, não como cacetes. Portanto para mim o Ar (principalmente ar fresco) é exactamente como uma Espada. Faz sentido então manter essa interpretação.

No entanto, só para o Jamie, fiz os Paus de cristal e prata para que não ardessem.

 

Fez um comentário interessante no seu site: “...aconselho a não olhar para o livrinho, no meu baralho ou noutros. Descobri que resulta muito melhor se olharem para a carta e lhe atribuírem o significado que parece certo para uma leitura em particular”. Escreveu um livro onde discute isto (a aconselho as pessoas a comprar), mas poderia explicar brevemente porque é que se aproxima do Tarot através desta perspectiva?

Tem a ver com a forma como eu penso que o Tarot funciona. Resumidamente o nosso inconsciente está aberto ao Universo e ao inconsciente dos outros. Portanto num sentido muito real, nós já sabemos todas as respostas a esse nível. O truque é fazer chegar esse nível (inconsciente) à mente consciente.

Quando olham para uma carta de Tarot, sem terem um significado pré-estabelecido e memorizado, permitem ao vosso inconsciente realçar os símbolos na carta que são importantes para aquela leitura, naquela altura. Também lhes permite ter uma reacção instintiva à carta, o que pode dizer muito.

Existem três formas de adquirir conhecimento; as nossas mentes, as nossas emoções e os nossos corpos. Quando prestamos atenção aos três, conseguimos fazer bastante bem um “triângulo” e obter uma imagem bastante precisa do que se passa. Quando ignoramos um ou dois desses aspectos, a nossa avaliação da situação e a nossa decisão sobre como agir nessa situação pode ter falhas.

Portanto quando se lê o Tarot usando os símbolos nas cartas que vocês escolheram como livro, em vez de imagens impressas, irão descobrir que algumas coisas saltam à vista; muitas vezes coisas que nunca tinham reparado antes naquela carta. Por exemplo, no meu baralho, podem olhar para o 6 de copas e ver que há um cavaleiro com armadura na parede por trás do rapaz, onde nunca tinham reparado antes. Isto pode dar-vos a sensação de que a pessoa para quem estão a ler está à espera do seu “cavaleiro andante” para a salvar. Ou podem ver os escudos nas Copas e sentir que aquela pessoa está a usar a sua ingenuidade e inocência como escudo protector. Estas coisas não estão em nenhum dos significados de um livro. Mas se prestarem a devida atenção a elas, as vossas leituras serão mais precisas.

 

Existem semelhanças óbvias entre o Rider-Waite e o Robin Wood, no entanto eu sugeria que você tornou o seu baralho mais invulgar devido à temática Wicca. Em que medida contribuiu Arthur Waite e Pamela Smith para a sua experiência com o seu baralho e com a sua técnica de leitura?

Bem, tal como disse, foi o primeiro baralho que tive, e o único que alguma vez tinha visto quando comecei pela primeira vez a desenhar o meu. Mas fiz esse processo ao longo de mais de 10 anos e já tinha visto centenas de baralhos e lido dezenas de livros sobre Tarot quando o acabei.

Penso que haja mais diferenças que semelhanças entre o meu baralho e o Rider-Waite. No fim de contas, eu pensei muito no simbolismo de cada carta. Como disse, não há nada nelas que seja só desenho ou que seja só “bonito”. Até as expressões nas caras são instrumentos deliberados para fazer sair a reacção instintiva que quero associar a cada carta. Ainda assim decidi, depois de pensar bastante, manter os mesmos naipes, nomes e números do baralho Rider-Waite. Os símbolos e situações que mantive são, em quase todos os casos, comuns a um largo número de baralhos. Quando descobri que esses símbolos coincidiam com o que eu achava ser o significado da carta, não vi razão para as mudar.

Existe uma espécie de inércia esotérica; coisas que têm sido feitas há muitos anos fluem mais facilmente nos seus canais habituais, e pareceu-me sensato tirar partido disso.

Quando leio, normalmente uso a velha Cruz Céltica. Sempre resultou bem comigo e, como disse, não mudo as coisas só por mudar. Na maior parte das vezes isso é contraproducente. Quando mudo algo é por uma boa razão.

 

Existem outros baralhos Wicca, como é que o seu é diferente?

Não faço ideia. A maioria foram impressos depois do meu estar feito e não os vi.

A ideia de desenhar um baralho é que dá a hipótese de se viver através de cada carta. Não é fácil, mas quando está acabado interioriza-se tudo isso. O que significa que agora, de maneira a não ver os padrões no mundo à minha volta, tenho de fechar os olhos, tapar os ouvidos e cantar “não vos oiço! La la la la!”.

O que significa que nos dias de hoje raramente leio Tarot. Quando o faço, uso o meu próprio baralho. No fim de contas desenhei-o de maneira e “falar” directamente com o meu inconsciente e ele fá-lo bastante bem.

É uma fonte de admiração constante o facto de ele também falar com o inconsciente de muitos outros.

 

Já fiz esta pergunta em muitas das minhas entrevistas e como deve ter adivinhado as respostas são variadas, mas na sua opinião quais são as origens do Tarot?

Existe um livro muito bom sobre isso. Chama-se A wicked pack of cards, escrito por Ronald Decker, Theirry Depaulis e Michael Dummet. De acordo com o Amazon.com está esgotado neste momento, mas ainda devem encontrá-lo na vossa biblioteca.

O Tarot começou como jogo de cartas no Séc. XV em Itália. Ainda é um jogo de cartas por toda a Europa. Um jogo muito complicado e complexo, que imediatamente cativou as audiências porque as pessoas gostam de coisas complicadas e complexas.

Começou a ser usado para fins ocultos no final do Séc. XVIII em França.

Mas nesta altura tornou-se tão esotérico como qualquer outra coisa. As pessoas têm-lhe dado significados esotéricos há mais de 200 anos e centenas de baralhos têm sido desenhados com esses significados em mente.

Na minha opinião como começou não é tão importante como aquilo em que se tornou.

Além disso, o Universo está tão desejoso de nos dar informações que podíamos fazer adivinhação através de caricas! Tudo o que é preciso é vontade de ouvir, e ele dir-nos-á tudo o que queremos saber. No entanto por vezes não queremos escutar porque o que nos têm a dizer é algo que não queremos ouvir. Muitas vezes essa informação exigiria trabalho ou mudanças da nossa parte, ou esmagaria as expectativas que construímos. Por isso ignoramo-la.

É por isso que teremos pessoas a virem fazer a mesma pergunta vezes em conta se nós deixarmos. A resposta nunca muda, mas elas esperam que sim. É do tipo abrir o frigorífico uma e outra vez, à espera que algo que querem comer apareça por magia. (sorrisos).

 

Reconhecemos que existem três sistemas principais de Tarot (Marseilles/Visconti, Rider-Waite e Thoth). Embora o seu baralho possa ser comparado ao Rider-Waite (posso sugerir a tradição Wicca como um quarto sistema), vê o Tarot a perder o seu valor esotérico devido ao comercialismo?

Não, não vejo, devido à resposta que dei anteriormente.

Nunca percebi porque é que o comercialismo é um problema. Se não querem comprar algo, não comprem! Se pensam que algo é demasiado espalhafatoso e brilhante, passem para outra coisa que seja mais a vosso gosto.

Quando olho para o que os outros chamam de comercialismo, não vejo exploração. Vejo ampliação de escolhas. Eu gosto de escolhas. Pelo que ouvi, existem mais de 5000 baralhos a serem impressos, com mais a saírem todas as semanas. Acho que é óptimo. Com todas estas escolhas disponíveis qualquer pessoa que procura um baralho deve conseguir encontrar um que seja realmente à medida.

 

Em relação à Wicca. Tem havido muitos debates em relação ao significado de Wicca. Pode dizer-nos o que significa ser Wiccan, da sua perspectiva e como se compara à trajectória de uma bruxa solitária?

LOL. Então quer uma entrevista ou outro livro?

Na minha opinião, que é a minha, Wicca é uma religião. Qualquer pessoa que diga ser Wicca, é, da mesma maneira que os dizem ser cristãos o são. É claro que há pessoas que dizem que este ou aquele não são Wiccan, assim como há pessoas que dizem que este ou aquele não são cristãos. Mas não vou julgar a relação de ninguém com a sua divindade.

Para mim, ser Wiccan significa ser uma sacerdotisa da Deusa e de Deus. É o que sou e o que faço. É assim que eu vejo o mundo e tudo nele.

Isto não muda, quer esteja a trabalhar com um grande grupo ou sozinha. Para mim não há diferença entre ser Wiccan e ser um practicante solitário. Às vezes estou sozinha, por vezes até durante anos. Outras vezes, como agora, estou a trabalhar principalmente com a minha família. Às vezes estou num grupo de aprendizagem de 15 membros. Às vezes encontro-me envolvida em rituais grandes e públicos.

Mas sou sempre eu, a mesma Deusa e Deus. O que me torna Wiccan é a minha relação com eles e isso não muda.

 

Qual a sua opinião em relação a palavras como feiticeiro, bruxo, mago?

Como tudo, depende do contexto. Nenhuma dessas palavras me ofende; mas também muito pouco me ofende (não me consigo lembrar de nada assim de repente. Coisas que me deixem triste sim. Mas não coisas que me ofendam).

Conheço alguns magos(as). Nenhuma outra palavra os descreve e o que fazem adequadamente. Magia cerimonial é apenas isso e Mago é o termo apropriado.

Na verdade “bruxo” significa “traidor”; mas quando é usado como termo para mágico não é normalmente tomado como insulto. Posso perdoar bastante ignorância. Afinal todos nós fomos ignorantes em relação à maioria das coisas numa dada altura.

 

O livro escrito por Janina Rennee intitulado Tarot Spell usa o seu baralho para as ilustrações. Costuma usar feitiços com Tarot, e, para principiantes, qual o seu conselho em relação ao uso de feitiços com Tarot?

Concordei em deixar a Lewellyn usar o meu baralho antes de ter visto o manuscrito. Depois de o ter visto, desejei ter recusado; mas um contracto é um contracto.

Na minha opinião vários dos feitiços naquele livro não são éticos, são perigosos e/ou estúpidos. Por exemplo, feitiços que fazem com que um indivíduo em especial se apaixone por si.

A ética na magia não é diferente da ética noutras áreas. Se pensam que não seria ético apontar uma arma à cabeça de alguém e forçá-lo a fazer algo, também não é ético forçá-lo por outros meios, incluindo magia. Escrevi um livro inteiro sobre ética intitulado When, Why... If por causa do livro da Janina Rennee. É uma longa história e vou-vos poupar. Mas o meu conselho é: não usem feitiços como aqueles.

Na verdade, se são principiantes, recomendaria não fazer qualquer tipo de feitiços. Estudem primeiro com alguém que saiba o que está a fazer. De outra forma podem meter-se em grandes sarilhos. Este conselho é a dobrar para todos os que tentaram fazer um feitiço e acabaram por ficar com uma enorme dor de cabeça.

 

Tem planos de escrever outro livro relacionado com o Tarot?

Sim, ainda faço tenção de um dia escrever um livro sobre maneiras de pôr as cartas e exercícios. Mas estou a trabalhar num livro de Filosofia e quero acabar esse primeiro.

 

Se houvesse algo no mundo que pudesse mudar (vamos fingir que tem o poder de influência para fazer quaisquer mudanças que ache adequadas), o que mudaria e porquê?

Faria com que Pensamento Crítico fosse ensinado em todas as escolas, a todos os níveis, em todo o planeta, a começar nos jardins de infância.

A maioria das pessoas que conheço não fazem ideia de como pensar claramente, abertamente e objectivamente. É uma habilidade, tal como qualquer outra, e pode ser aprendida.

Se não souberem como fazê-lo, serão presas fáceis para pessoas que vos manipularão e para máquinas de propaganda. Se o souberem fazer, poderão facilmente encontrar erros lógicos nos seus argumentos e não serão persuadidos.

Como mencionei anteriormente, acredito que precisamos de prestar atenção ao nosso intelecto, as nossas emoções e os nossos corpos. Tal não será possível se não conseguirem usar nenhum. Estamos agora a ser ensinados a reconhecer as nossas emoções; a dar-lhes nomes e a obtê-las e isso é, penso eu, algo de bom. Mas temos também de saber usar as nossas mentes e há muita pressão para não o fazermos. Muitas instituições e a sociedade em geral dizem-nos para ouvir os nossos apetites e não pensar; só para fazermos o que nos é dito para fazer. Para substituir as emoções pelo intelecto, em vez de temperar o intelecto com emoções.

É uma situação perigosa porque permite um enorme desequilíbrio, já que poucos tomam decisões por muitos. E esses poucos raramente têm o bem estar de muitos em mente; normalmente eles só trabalham para eles próprios.

Se todos pudessem pensar, e fossem encorajados a usar a sua voz, então penso que juntos poderíamos tratar da maioria dos outros problemas no mundo.

 

Se ficasse presa numa ilha deserta e pudesse ter apenas uma carta de Tarot consigo, qual seria e porquê?

Uma carta em branco, para poder escrever um bilhete a pedir ajuda e colocá-lo numa garrafa.

Desculpem, mas não consigo pensar que utilidade teria uma carta individual numa ilha deserta.

Se queria perguntar “qual é a sua carta favorita?” não tenho uma. Tenho algumas menos favoritas (o 10 de Espadas vem-me à ideia), mas nenhuma favorita.

 

Quem vê como uma das maiores influências no Tarot no Séc. XX/XXI e porquê?

Provavelmente Stuart Kaplan, da US Games, por estranho que pareça; simplesmente porque ele fez com que muitos baralhos se tornassem disponíveis.

 

Que conselhos dá aos nossos leitores no que respeita à experiência e uso do Tarot?

Primeiro, descubram qual o vosso sistema pessoal de símbolos e descubram um baralho que use esses símbolos. Saberão qual é quando o encontrarem, porque vai parecer que ele “chama” por vocês.

Não tenham medo de mudar de baralho. O nosso próprio sistema de símbolos pode mudar ao longo dos anos e temos experiências diferentes que podem mudar a maneira como vemos o mundo à nossa volta. Por esta razão, podem descobrir que um baralho que sempre usaram já não serve tão bem. Isso é bom.

Sigam o vosso próprio instinto. Se alguém vos disser que têm de fazer algo que não vos parece bem, pensem na razão pela qual vos disseram isso. Podem aprender algo de útil. Mas não o façam a não ser que se sintam bem. Só porque está certo para eles não significa que esteja bem para vocês. Lembrem-se dos três canais.

Definam limites. Não leiam quando estão muito cansados e não respondam infinitamente à mesma pergunta para a mesma pessoa (nem sequer para vocês). Não vai estar nada de novo no frigorífico a não ser que alguém ponha qualquer coisa lá dentro. A vossa vida provavelmente não vai mudar para melhor até vocês a mudarem. Olhar e olhar e olhar e não fazer nada não serve para nada além de vos fazer perder tempo.

Soltem as vossas expectativas. Demasiadas vezes construímos cenários elaborados na nossa mente de tal maneira que não conseguimos aceitar a realidade quando esta surge (mesmo que seja melhor). Isto é derrotarmo-nos. Quanto mais velha fico, mais vejo isto como um problema. Construímos maus cenários e fazemos profecias que nos animem. Construímos cenários bonitos e sentimo-nos enganados (ou inadequados) quando não acontece aquilo que imaginávamos. Lembrem-se, todos nós temos livre arbítrio; mil milhões de pessoas. O que torna o mundo muito fluído e excitante. Por isso prestem atenção quando este se desenrola, em vez de contarem histórias daquilo que esperam que aconteça. As vossas leituras (e a vossa vida) correrão melhor desta forma.

Mantenham um diário. Serão capazes de ver o quão certas são as vossa leituras e melhorar a exactidão, ao compararem o que viram com o que realmente aconteceu. É a melhor maneira que conheço para “afiarem” os vossos instintos e para realmente aprenderam a linguagem da nossa mente inconsciente.

Divirtam-se! A vida é demasiado curta para estarmos sempre sérios. Se não gozam o que estão a fazer, descubram algo de agradável ou arranjem maneira de parar de o fazer. Afinal, sentirmo-nos miseráveis a toda a hora não é bom para a alma.

 

Entrevista feita por Alex B. Crowther

Publicada pela primeira vez em inglês em www.aeclectic.net

Frase

"Não sei se os astros mandam neste mundo,
Nem se as cartas -
As de jogar ou as do Tarot -
Podem revelar qualquer coisa.

Não sei se deitando dados
Se chega a qualquer conclusão.
Mas também não sei
Se vivendo como o comum dos homens
Se atinge qualquer coisa.

Sim, não sei"


Álvaro de Campos

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