Entrevista com Rachel Pollack

 

Os créditos literários de Rachel Pollack incluem Teach Yourself Fortune Telling; The Body of the Goddess: Sacred Wisdom in Myth, Landscape and Culture; The Power of Ritual; textos sobre Tarot para os baralhos Haindl, Salvador Dalí e Vertigo; livros de quadradinhos Doom Patrol, The New Gods e Time Breakers, e 78 Degrees of Wisdom, publicado originalmente em dois volumes, mas disponível agora numa edição única revista. Criou também o baralho Shinning Tribe Tarot (anteriormente Shinning Woman) e livro.

A minha entrevista a Rachel Pollack foi feita pelo telefone, a partir da sua casa na zona norte de Nova Iorque. A partir do momento em que atendeu o telefone, soube que iria ser uma entrevista fascinante. De todas as pessoas pertencentes ao mundo do tarot com quem falei, Rachel Pollack foi com certeza a mais agradável até agora.

Foi aberta, descontraída e falou com um tom muito amigável, relaxante. Após dez minutos de entrevista já me sentia como se estivesse a falar com uma velha amiga. Diane Wilkes descreveu-a como “descendente literária do escultor, pintor, arquitecto e poeta Miguelângelo, em termos de alcance e destreza”. Eu iria mais longe ao compará-la com a carta de tarot Imperatriz. O seu dom natural, mundial e espiritual tornou-se evidente enquanto falámos. Se alguma vez tiver a oportunidade de conhecer Rachel Pollack pessoalmente, aproveito sem hesitar.

Após oito anos de leitura de Tarot, começou a escrever 78 Degrees of Wisdom. Qual foi o catalisador disto?

Estava numa casa de praia de uma amiga e ela pediu-me para lhe ensinar a ler o Tarot, daí comecei a fazer lições para ensinar em aulas e o livro desenvolveu-se a partir do material das minhas lições para aulas.


Começou a ler usando o baralho Rider-Waite. Vê este baralho como sendo o sistema definitivo em comparação, digamos, com o Marseilles ou o Thoth?

O baralho Rider-Waite era o único baralho disponível na altura, não havia muitos baralhos a serem publicados como hoje em dia. Penso não existir um sistema definitivo dentro dos baralhos actuais de Tarot. É como uma forma de arte que transmite mensagens semelhantes mas usando meios artísticos diferentes.


Vê o Tarot como sendo um instrumento para a intuição ou é puramente académico?

Seria uma pena aproximarmo-nos do Tarot apenas do ponto de vista académico. Penso que seja importante aprender os significados tradicionais, de onde vem o sistema, mas é necessário voltar aos resultados intuitivos. Eu digo às pessoas para gostarem das imagens... conhecê-las do ponto de vista espiritual. Aprendam por todos os meios os significados desejados, afinal não vejo o propósito de ignorar o objectivo dos significados. Seria também inútil aproximarmo-nos das cartas apenas de uma perspectiva intuitiva, deve existir um equilíbrio saudável entre os dois. Nesta altura eu diria que nenhum baralho é mais correcto que outro, a partir desta abordagem.


O livro que escreveu para acompanhar o baralho Haindl pode quase ser usado da mesma maneira que o 78 Degrees os Wisdom, apesar de ter sido escrito para um baralho específico. Qual foi a sua intenção?

Bem, muita da minha experiência e conhecimento posterior sobre o Tarot está certamente reflectido no livro; no entanto contém uma qualidade universal com significado espiritual que não tem nada a ver com as minhas ligações originais ao Tarot. Não obstante, definitivamente é acrescentado valor com o artista Hermann Haindl.


Qual o impacto de Hermann Haindl sobre si em relação à sua experiência anterior com baralhos do tipo Rider-Waite?

Fez-me ultrapassar os meus preconceitos em relação aos alemães... vindos de um passado judaico. Quando viajei até à Alemanha para o conhecer, pensei “E pá, estou na Alemanha”. O seu trabalho era muito meditativo e permitiu-me ser mais aberta.


O seu baralho The Shinning Woman foi relançado em 2001 com o nome Shinning Tribe. Porquê a alteração do nome?

Primeiro, foi uma mudança de nome de ordem prática. Quando percebi que existia uma ideia de que este baralho estava ligado apenas às mulheres e que os homens não o usariam, fiquei um pouco preocupada. Queria que as pessoas soubessem que não é um baralho sexista. O relançamento contém também novas qualidades que quis melhorar, como por exemplo, mudanças nas cores... não me sentia completamente confortável com o baralho original.
Segundo, quis transmitir o conceito de tribo... pessoas que usam o Tarot têm um sentido tribal de comunidade entre elas e quis que o baralho reflectisse isso.


Pode explicar o nome dos menores? (Trees = Paus, Rivers = Copas, Birds = Espadas, Stones = Ouros)

Gosto da ideia das cartas serem uma criação da natureza em vez de serem uma criação do Homem, como uma Espada ou Ouro(s). A perspectiva tribal do meu baralho tem um sentido de espiritualidade que não pode reflectir-se em objectos feitos pelo Homem.


Também deu outros nomes aos valetes, reis, rainhas do baralho Shinning Tribe. Qual foi a sua intenção?

Bem, normalmente as outras cartas são conceptuais e as cartas como os valetes, reis, rainhas são aborrecidos (risos). As minhas são um conceito de desenvolvimento, e reproduzem a noção de que a realização não é um conceito alheio. O baralho em geral tem poder para dialogar directamente com o nosso lado espiritual. É muito bom para leituras profundas, mas penso que contém também um significado divertido. O Tarot não deve ser sempre concebido como algo profundamente sério, também pode por vezes ser divertido.


Existem muitas teorias em relação à origem do Tarot. Qual é a sua?

Penso que seja muito valioso vermos quais os mitos que rodeiam as origens do Tarot. Tem havido definitivamente mais pesquisa nas últimas décadas nesse aspecto. É evidente que a conceptualização física do Tarot foi feita durante o período Renascentista e isso é prático porque foi uma altura de passar muitas ideias para o material. No entanto as ideias e o objectivo esotérico do sistema de Tarot provém certamente de tradições anteriores. O Tarot existe desde sempre, mas provavelmente só neste período é que se desenvolveu o conceito físico.


Com tantos baralhos novos no mercado, acha que o Tarot ainda tem a mesma relevância para as pessoas?

Acho que se está a tornar mais relevante. Já não é monolítico. É fantástico que esteja a ser feito de tantas maneiras artísticas.


O seu novo livro The Forest of Souls: A Walk Through the Tarot dá a ideia de que o Tarot é mais de que uma mera bola de cristal e usa a assimilação musical para o reflectir.

Sim, a adivinhação é mais do que apenas descobrir coisas. A palavra “divino” deriva do objectivo de comunicar com o(s) vosso(s) Deus(es). O livro faz-nos ir mais além das dimensões normais. Clarifica o uso do Tarot como algo mais do que um instrumento de adivinhação. A minha intenção, com este livro, é revelar o objectivo da espiritualidade do Tarot. O Tarot é um instrumento da nossa sabedoria. Vejo o Golden Dawn e pessoas como Arthur Waite e Aleister Crowley como se fossem música clássica. Não há espaço para erros ao interpretar as notas e a forma como a música deve ser tocada. A música mundial são os Tarots culturais, que têm a mesma percepção da música. A música Jazz representa os leitores contemporâneos. Sabem a estrutura geral, mas estão abertos à espontaneidade enquanto mantêm a estrutura básica.


Um conceito interessante do livro foi perguntar ao Tarot como funciona. O livro fá-la conhecer melhor o sistema de Tarot, acima da ideia de adivinhação?

As pessoas sentir-se-ão inspirada para ler o Tarot. Ninguém “pergunta” às cartas. O Tarot existe para teorizar, usar, adquirir conhecimento e ver um propósito. Eu espero que pessoas que nunca tenham tenção de ler Tarot leiam The Forest of Souls: A Walk Through the Tarot porque as ajudará a obter uma perspectiva universal. O livro oferece-se como um guia através da espiritualidade e das divindades do sistema de Tarot em vez de uma lista de significados carta a carta. Existem algumas magníficas novas maneiras de deitar as cartas que introduzi para ganhar mais percepção de conhecimento espiritual.


Se estivesse numa ilha deserta e pudesse levar uma carta de Tarot consigo, qual seria?

Só uma (risos)? Oh, teria de ser o Imperador, para conquistar o ambiente. No entanto teria de juntar mais algumas. A Imperatriz para desfrutar de mim própria e da natureza, a Carroça para um claro sentido de direcção e definitivamente o Mágico para criar algo a partir do nada, de forma a sobreviver.


Que conselho dá ao Taroístas de hoje?

Deixem as imagens surtirem efeito em vocês. Trabalhem com elas abertamente e não tenham medo de experimentar.

Entrevista por Alex B. Crowther
Publicada pela primeira vez em Inglês em www.aeclectic.net

 

Frase

"Não sei se os astros mandam neste mundo,
Nem se as cartas -
As de jogar ou as do Tarot -
Podem revelar qualquer coisa.

Não sei se deitando dados
Se chega a qualquer conclusão.
Mas também não sei
Se vivendo como o comum dos homens
Se atinge qualquer coisa.

Sim, não sei"


Álvaro de Campos

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