Entrevista a Ma Deva Padma
Ma Deva Padma, criadora do Osho Zen Tarot e do novo TAO Oracle, fala sobre o tarot em geral e sobre os baralhos que criou.
Como é que se envolveu no tarot? De onde surgiu o interesse pelo tarot?
Vi e “brinquei” pela primeira vez com cartas de tarot quando tinha 12 ou 13 anos. As imagens coloridas do baralho intrigaram-me e eram de certa forma familiares, mas não tive mais informações sobre elas a não ser uns anos mais tarde. Foram uns anos explosivos e apaixonados para mim, que coincidiram com o início da puberdade, durante os quais questionei o sentido da vida e expus-me a um tipo de arte que representava as filosofias esotéricas/religiosas do antigo ocidente e oriente, muito diferentes do meu mundo. Desde muito nova que soube que queria ser artista. Também sabia que um dia criaria as minhas próprias cartas. Não tinham de ser necessariamente de ser cartas de tarot. Em vez disso, “o meu baralho” teria imagens fabulosas que “falariam” com todos, independentemente de onde viessem. O facto de ser uma artista Aquariana cheia de paixão com vontade de criar algo valioso para a humanidade fez com que essa visão se mantivesse viva durante vários anos até, anos mais tarde, ter sido apresentada "formalmente” ao tarot.
Mas se pensar nas raízes dos meus baralhos Zen e TAO, quando tinha 13 anos ia às aulas de arte que tinha ao Sábado e fazia desenhos durante horas em enormes salas que continham as enormes colecções de antiguidades do Museu de Arte de Bóston. O museu tinha três áreas às quais voltava sempre: à área egípcia, à área da Europa Medieval e à área Chinesa/Tibetana. Nessas áreas senti uma aproximação por vezes estranha a certas imagens ou símbolos. Gostava particularmente dos manuscritos iluminados das primeiras eras cristãs e ficava fascinada com as pictografias e os hieróglifos dos antigos mundos do Egipto, Suméria e China.
Como aprofundou o estudo do tarot?
A minha primeira experiência real em relação ao significado do tarot surgiu no início dos anos 70, enquanto estava num curso avançado no Instituto Arica, em Nova Iorque. Óscar Ichazo, fundador e inspiração da escola ecléctica/esotérica Arica, era um homem extraordinário e tinha uma presença carismática. Os seus conhecimentos dos ensinamentos e métodos esotéricos de várias culturas foram sintetizados no Trabalho Arica. Começou com um treino de 40 dias e progrediu até um curso avançado de três semanas. Durante esse curso avançado tínhamos várias conversas com Ichazo, juntamente com visualizações, trabalhos de grupo e meditações, algumas delas concentradas no tarot.
A simbologia do tarot e a sua interpretação dos aspectos da natureza humana alimentaram a minha psique. As peças do puzzle encaixavam na minha mente. Descobri que podia ter acesso ao discernimento e a conselhos sempre que fosse necessário, através das cartas. Não me fixei em métodos particulares ou a leituras tradicionais e também não estava interessada em saber o futuro. Em vez disso via as cartas como um amigo muito sábio que se mostrava disponível sempre que as minhas perguntas sobre o presente eram sinceras. Era como segurar num espelho e ver um ser mais alto a falar comigo. Com o passar do tempo descobri inúmeras maneiras de usar o tarot. Naquela altura irritava-me ver pessoas a usarem o tarot como um jogo ou para entreter. Ficava ofendida e enervava-me com a irresponsabilidade do que eu achava ser uma enorme falta de conhecimentos e de respeito! Por dentro gritava que as pessoas não percebiam que o facto de terem uma ferramenta de sabedoria como esta tão disponível era uma bênção. Porque é que elas não viam isso?!!!
Quando tinha vinte e tal anos senti que havia uma forma de incluir num baralho a essência do tarot como um Livro da Vida, a vida de todos, com o qual se pudesse trabalhar sem ser preciso um médium ou sem termos um conhecimento imediato dos símbolos esotéricos, e senti que podia fazer com que os outros se sentissem atraídos pelo baralho, mesmo que não tivessem interessados no tarot. Era realmente uma GRANDE visão.
Só quando fui para a Índia em 1975 e me tornei aluna de Osho (na altura conhecido como Bhagwan Shree Rajneesh) é que percebi que tudo é possível desde se tenha a atenção certa, o tempo certo e o coração aberto. Senti que um dia o “meu” baralho estaria de alguma forma ligado a Osho. A sua maneira de estar muitas vezes usava o humor para amortecer o golpe de lições que, de outra forma, seriam bastante duras e criariam mais resistência do que assimilação. Osho era mestre em passar por cima de tretas e em incutir-nos a essência dos seus ensinamentos, apesar do nosso egotismo espiritual. Tudo isso fez com que gradualmente quiséssemos descobrir a verdade e compreender a nossa natureza interior.
Leu livros, tirou cursos ou aprendeu sozinha?
A vida foi a minha professora e o Osho foi o guia que me ajudou a perceber que a vida é uma professora infinitamente sábia e compassiva e que a seu tempo bastaria vivermos a vida com paixão, convicção e consciência.
Qual foi o seu primeiro baralho?
O Rider-Waite Tarot.
Tem muitos baralhos?
Apenas três: o meu Zen e o Tao e as Medicine Cards de Jamie Sams, David Carson e Ângela Werneke.
Qual é o seu baralho preferido (sem contar com os seus)?
Não tenho nenhum preferido.
Bhagwan Shree Rajneesh participou na criação deste baralho?
É impossível separá-lo da criação deste baralho. Vivi tantos anos nesta comunidade, os meus quartos eram em casa dele. A sua presença durante esse tempo criativo penetrou na criação do baralho.
E ele aprovou-o?
Sim. Ele ainda era vivo quando Ma Jivan Upasika, excelente taróloga e aluna alemã, perguntou a Osho o que ele pensava sobre criar um baralho de tarot. Ele disse que ela devia fazê-lo e ela veio falar comigo. Por isso enviei uns desenhos a Osho para ele os ver e ele disse que eu devia criar as cartas. Mal eu sabia que, um ano mais tarde, Upasika sairia da comuna e que eu acabaria por fazer tudo sozinha (durante cinco anos, ao todo). Por isso a criação daquilo a que agora chamamos o Osho Zen Tarot, as imagens, incluindo o desenhos das cartas, os comentários para o livro e a selecção de citações dos discursos de Osho Zen foi um trabalho contínuo que mantive ao mesmo tempo que se desenvolviam outro projectos e funções da comunidade. O meu estúdio encontrava-se na casa onde o mestre viveu durante tantos anos. A sua presença nunca me abandonou, mesmo depois do seu corpo ter morrido. Por isso muitas vezes sentia-o a sorrir como se estivesse no meu quarto enquanto eu pintava noite fora.
Enquanto esteve vivo, ele sempre apoiou a minha expressão criativa e a criação do baralho Osho Zen foi um trabalho profundo e transformador entre o mestre e uma discípula devota. Nos primeiros anos como discípula rezei literalmente para que as minhas capacidades criativas apoiassem os seus ensinamentos. Não tinha começado este projecto há muito tempo quando senti que este trabalho seria isso mesmo. Tornou-se claro para mim, antes dos outros verem o que estava a fazer, que o que eu estava a criar seria usado, amado e respeitado por centenas de milhares de pessoas por todo o mundo. Tudo isso aconteceu e passou. E se não estou em erro é o título de Osho mais popular, com 14 ou 15 traduções.
Quais eram as ideias dele em relação ao tarot, se é que tinha algumas?
Que eu me lembre ele não se interessava muito por práticas esotéricas, gostava de abrir os mistérios para a humanidade se transformar numa nova espécie com mais presença, responsabilidade e inteligência, que ele chamava de Novo Homem. Uma visão totalmente aquariana!
Era ou é uma discípula de Osho e alguma vez viveu na sua comunidade em Oregon?
Vivi lá do início até se desfazer.
O que é que a fez adicionar a carta do Mestre como uma Arcana Maior extra?
A decisão não foi minha. Não sei se foi ideia da Ma Jivan Upasika ou se naquela altura Osho pedira para a incluir no baralho. Nunca lhe perguntei porque para mim sempre fez sentido haver uma carta para o Mestre.
Planeia lançar mais algum baralho e se sim, seguiria de novo a tradição Zen ou escolheria um ângulo completamente diferente?
Criei o TAO Oracle (também publicado pela St Martins Press) que foi lançado recentemente, em Outubro de 2003, nos Estados Unidos e no Canadá. Foi outro projecto enorme que durou sete anos a criar. É uma nova abordagem ao I Ching, feita através de um baralho (com uma qualidade de arte particular que concebi para iluminar as 64 mensagens essenciais do I Ching).
O que a fez criar este baralho?
Lá no fundo eu sabia, antes de completar o Zen Tarot, que ainda tinha outro baralho para fazer. Primeiro pensei que estivesse relacionado com runas, mas após alguns momentos extraordinários de compreensão percebi que tinha de ser sobre o I Ching. Tornou-se tão óbvio que carmicamente tive de trabalhar para juntar os dois pilares de sabedoria: o ocidente e o oriente.
Quais são as principais diferenças entre o Osho Zen Tarot e o TAO Oracle?
Depois de terminar o TAO Oracle percebi que ele está numa frequência diferente do Zen Tarot. Vejo o baralho Zen um pouco como o sol: brilhante, vibrante, cativante na sua claridade colorida. O baralho Zen é fácil de ler, mesmo que seja a partir de uma experiência palpável. Funciona como uma alavanca Zen, vai direito à cabeça criando um entendimento que depois entra na mente e consegue criar uma consciência elevada e uma maior compreensão. É assim que, basicamente, facilita a auto-transformação.
Por outro lado, o baralho TAO é como a lua: obriga-nos a irmos mais fundo, as suas imagens e a qualidade das cartas parecem mais antigas. Em muitas das cartas as imagens são extremamente pormenorizadas e foram criadas originalmente como quadros grandes. O baralho TAO parece antigo, como se tivesse entrado no presente de uma forma à qual nos relacionamos, mas assim que começamos a trabalhar com ele, voltamos ao baralho como se fosse um sábio prudente.
Na minha opinião, estes dois baralhos juntos formam uma cosmologia completa e são uma ferramenta poderosa para a transformação.
Qual a imagem preferida do Osho Zen Tarot e do TAO Oracle?
Não tenho preferidas, pois cada uma delas, só por si, deixam-me maravilhada… as 143.
Publicada em inglês em www.aeclectic.net


