Entrevista com Alexandra Gennetti

 

Criadora do conjunto de tarot “Wheel of Change”, por Dianne Wilkes

 

Em Agosto a Destiny Books (uma marca da Inner Traditions) vai lançar o vibrante e empolgante novo conjunto de tarot (baralho e livro), “Wheel of Change”. O Tarot News teve a sorte de conseguir entrevistar a criadora do conjunto, Alexandra Gennetti.

 

TN: Sei que o “Wheel of Change” vai chegar às lojas em breve. Como se sente ao ver o seu “bebé” a vir ao mundo?

 

AG: È muito emocionante, principalmente porque em Agosto faz 10 anos que estou a trabalhar neste projecto! Mas nesta altura também é terrivelmente frustrante porque os livros estão encalhados em Hong Kong em parte devido à mudança de governo e só tenho uma cópia para mostrar!

 

È especialmente excitante pensar que as pessoas vão agora ter acesso às imagens e ao livro tudo junto. Até agora, com a exposição limitada que tive, principalmente em simpósios na Costa Oeste e na internet, a maioria das pessoas tem reagido apenas às imagens. Mas muito do meu trabalho é em texto e penso que o livro é uma parte emocionante do projecto. Estou muito interessada em ouvir o feedback do livro e também das imagens.

 

TN: Poderia descrever o processo envolvido em criar um baralho? O que a impeliu para começar, e o que a manteve suficientemente dedicada para completar um livro e 78 cartas?

 

AG: Assim que comecei, já não consegui parar – as imagens passavam por mim. De facto, ainda o fazem. Era capaz de começar outro conjunto de Menores amanhã! Tenho ideias para, no mínimo, mais dez cartas neste momento. O processo em si tornou-se inspirador. Começa-se por se fazer uma carta – a minha primeira foi a Lua. Depois faz-se outra... quando já se fez dez ou mais, começam a acontecer sincronizações estranhas. Enquanto se está a trabalhar numa carta em particular, acontecimentos na nossa vida e até no mundo vão subtilmente reflectir-se nos significados das cartas. Estava cheia de medo de trabalhar na Torre. Mas felizmente, escapei a traumas com essa (parti apenas uma jarra).

 

TN: Se pudesse descrever o seu baralho a alguém com apenas uma frase, que diria? O que considera único no seu baralho?

 

AG: Uma frase! Eh lá. Penso que citaria o meu magnífico editor Rowan Jacobsen e diria “Ao permanecer verdadeira à estrutura tradicional do Tarot, mas acrescentando-lhe camadas de padrões e significados obtidos do mundo natural, de crenças centradas na Deusa, de religiões tradicionais, e de cultura contemporânea, o tarot “Wheel of Change” transcende qualquer sistema de crenças para se tornar uma ferramenta vibrante para ajudar a fazer as ligações entre a magia simples do dia a dia e as forças universais que governam as vidas dos anciãos e também dos jovens.” Conseguem acreditar nesta frase! Esta citação é tirada da parte de trás da caixa e descreve perfeitamente o baralho.

 

Uma das qualidades únicas do baralho é o seu profundo multiculturalismo. A maioria (todos?) os baralhos que incluem muitas culturas designam um naipe para cada cultura. Por exemplo, todos os Paus serão culturas Africanas. No meu baralho espalhei as culturas pelos naipes. Desta forma tentei ilustrar que todos nós, não importa o tom de pele ou de que continente eram os nossos antepassados, participamos na totalidade da vida. Só porque a minha pele é branca (a mim parece-me cor de rosa!) não significa que vejo a vida através do naipe de Espadas... todos nós temos um corpo, uma vontade, sentimentos e ideias!

 

Para além disso, este baralho é único devido à forma como os símbolos dos Arcanos Menores foram desenvolvidos. Saí da Terra, para usar espelhos, amonites fósseis, para moedas e pratos como símbolo de Discos. Nas Espadas usei tesouras, serras, utensílios de jardinagem, vidros partidos a antigas facas de sílex, só para dar alguns exemplos. Tentei alargar os símbolos o mais possível mas mantendo-me fiel à natureza arquétipa das qualidades dos naipes. Também tentei uma e outra vez visualizar a relação ENTRE os naipes. Por exemplo, no oito de Espadas mostro uma bola de baseball a atravessar uma janela. Os estilhaços de vidro partido representam palavras “aguçadas”. Esta carta serve para mostrar a relação entre o nosso ambiente físico (a bola) e o nosso estado mental (a janela fragmentada).

 

A outra contribuição única do “Wheel of Change” é a minha descoberta  de uma forma completamente nova de organizar num sistema arquétipo que incluem padrões da história e de mitos. Estes padrões são o ponto central do meu trabalho com o tarot e para mim define as verdades básicas da nossa relação com a Natureza. Isso encontra-se no capítulo “Introduction to the Major Arcana” do meu livro.

 

TN: Uma coisa que realmente gosto no seu baralho foi a forma como criou as cartas de corte em relação à ideia de multiculturalismo. Poderia descrever as cartas de corte no seu baralho e a sua motivação ao fazê-las assim?

 

AG: Como mencionei atrás, todas as raças aparecem em todos os naipes, portanto nas cartas de corte há uma pessoa Negra, Branca, Vermelha e Amarela em cada carta de corte de cada naipe. O que significa que há uma Rainha Negra, uma Rainha Branca, uma Rainha Vermelha e uma Rainha Amarela, mas o Cavaleiro Negro será de um naipe diferente da Rainha Negra. A propósito, não gosto destes nomes ridículos de cores mas tendo em conta a falta de termos simbólicos melhores, usei estes na mesma.

 

Portanto, no naipe de Ouros, por exemplo, tenho um Príncipe Branco (é uma pessoa que arranja rodas, na sua loja), e a Princesa é do Leste Asiático, de Rajasthan (planta sementes e oferece pequenos chapatti num prato). O Cavaleiro é um guerreiro Azteca (com a pedra do quinto sol por trás). A Rainha é uma mulher tribal africana da Àfrica Central (Uganda, fronteira do Quénia – a tecer um cesto). Assim, em cada naipe temos uma pessoa Branca, uma pessoa Negra, uma Asiática e uma Nativa Americana.

 

No naipe de Paus tenho um Príncipe Nativo Americano com o seu cachimbo da paz das planícies (Arapahoe?). A Princesa é uma rapariga do Oeste Africano a dançar de forma selvagem (num vestido colorido e com um almofariz e um pilão). O Cavaleiro é um monge tibetano em meditação com o seu dorje. A Rainha é uma mulher Branca a tocar flauta com musica à sua volta (o desafio é que música será?).

 

Desta forma sinto que tirei limites aos elementos raciais. Quis expressar a verdade: que todos participamos do reino da vida. Claro, o meu sonho é produzir um conjunto completo de cartas de corte para este baralho – todas as 16 em cada naipe. Quero mostrar que cada raça tem um papel possível no tarot. Vejo um Cavaleiro de Copas Negro, Branco, Amarelo e Vermelho e cada um dos Príncipes, etc.

 

TN: Existe uma energia significativa da Deusa no seu baralho. Considera o “Wheel of Change” um baralho Pagão? Porquê ou porque não?

 

AG: SIM! É um baralho Pagão. Mas, ao contrário de muitos baralhos Pagãos, reconhece o conceito cristão de Deus Pai, especialmente se discutirmos o naipe de Espadas como o reino das ideias. Deus criou o seu mundo através da palavra oral e o mundo das ideias, enquanto a Deusa criou o seu mundo através do impulso natural do seu corpo criativo.

 

Gostei de um autocolante que vi recentemente: “A minha Deusa deu à luz o teu Deus”. E é assim que eu vejo as coisas. Para mim, a ideia de que a própria Terra é o corpo de uma Deusa fertilizante, cria uma visão do mundo onde a natureza e a humanidade estão em equilíbrio e uma dentro da outra.

 

Para mim, o Paganismo requer a crença que todo o mundo natural está profundamente relacionado e que o espírito do impulso criativo corre através de toda a natureza e, claro, através de todos nós porque somos parte da natureza (duh!). Parece-me uma crença estranha aquela que destaca Deus ou a Deusa excluindo o outro, pois é na nossa relação com o masculino e feminino que somos capazes de nos ligarmos e experimentar a totalidade da nossa dualidade.

 

Ao discutir a relação do masculino com o feminino na natureza, gostaria de citar uma breve passagem do meu livro: “È sempre importante ter me mente a natureza dúbia da designação do masculino e do feminino. A natureza destes opostos é definida apenas através da sua relação”. Isto quer dizer que os nossos genitais não definem essa relação, mas sim as nossas acções. Nesta entrevista, por exemplo, você está a fazer-me perguntas e por isso toma o papel criativo enquanto eu simplesmente respondo às perguntas. Mas mais tarde, quando os leitores recebem a informação que lhes dei, tornam-se uma parte activa na estimulação de ideias novas para eles.

 

TN: Poderia explicar “Filosofia Transtântrica” de forma mais simples e a sua influência no baralho?

 

AG: Podia dar um enorme seminário sobre este assunto! E gostaria de... Primeiro devo explicar o que é Transtântrica...

 

No final dos anos 70 estava a ter muitas aulas de Filosofia no Sonoma State Collegue com um professor brilhante chamado Stanley V. McDaniel. As suas incríveis classes tinham títulos como “Prática de Mantra”, “Mantra, Tantra e Tolkien” e “Filosofia Transtântrica” , assim como aulas mais comuns como “Metafísica” e “Filosofia Oriental”. O seu principal interesse era a estrutura profunda das filosofias não-dualistas e as ligações entre o transaccionalismo e religiões orientais como o Budismo Tibetano. Nos anos 60 ele tinha vivido em Haight Ashbury e tinha estado envolvido no novo interesse nestas religiões orientais e em coisas como o Tarot.

 

Transtantra é o nome que ele deu à meta-filosofia que descobriu. É uma forma LÓGICA, uma forma de tirar os padrões básicos da filosofia para ver como elas descrevem o mundo. Não é uma prática específica ou uma filosofia estruturada em si, mas um padrão básico descritivo SEM CONTEÚDO que é comum a TODAS as filosofias não-dualistas. Torna-se uma forma de determinar a totalidade dessas filosofias através dos seus cinco esquemas ou diagramas de estrutura. Por exemplo, o modelo astrológico não é totalmente não-dualista porque falta o padrão de um esquema (o número 2).

 

Claro que isto é simplificar terrivelmente os princípios da Trantântrica! Como disse, poderia dar um seminário durante um ano sobre este assunto! (Fiz a aula três vezes). Os cinco padrões juntos descrevem a rede emaranhada das nossas interacções complexas do nosso desenvolvimento e incluem a magia e o amor que podemos exprimir através das nossas acções.

 

Um dos padrões mais simples incluídos é o princípio do Triângulo Mágico: uma coisa (1) é combinada com outra (2) através da acção (3) para resultar numa coisa nova (4). Isto é um princípio comum também no Tarot, visto normalment no Tetragrammaton: yod – he – vau – he. No “Wheel of Change Tarot” integrei completamente o Triângulo Mágico e descrevi ao pormenor a sua aplicação em acções do dia a dia.

 

Também integrei todos os outros esquemas no baralho para fazer um sistema totalmente não dualísta. No fim do meu livro está incluído um pequeno ensaio por Stan McDaniel que descreve em pormenor alguns desses princípios. Eventualmente (brevemente, com o desenvolvimento do interesse!) planeio dar aulas que cobrirão os princípios do Transtântrico. Nesta aula, planeio mostrar como os cinco esquemas revelam o padrão subjacente da consciência através de ritual, da natureza e através das minhas cartas de Tarot.

 

TN: Existe uma mistura fascinante de imagens tradicionais e modernos no seu baralho. Qual foi a sua intenção ao misturar os vários símbolos?

 

AG: Sempre sublinhei, quando algumas pessoas ficam chocadas com a refinaria de petróleo no seis de Paus, que quando sonhamos à noite não estamos limitados aos símbolos tradicionais! Parece-me que, para encontrarmos o nosso caminho no meio da confusão que criámos através das nossas práticas comerciais, precisamos de um Tarot que fale à alma moderna de uma maneira simbólica. Ao incluir imagens modernas, tento mostrar a história como um processo de desenvolvimento em analogia com o desenvolvimento individual. Gosto de pensar que a humanidade está na sua adolescência. Quando nos separamos dos nosso pais (a terra e a natureza), e nos rebelamos contra eles, espero que possamos no fim compensá-los e descobrir que há sabedoria nas suas maneiras simples e antiquadas! Devido a esta ideia do progresso da alma humana, quis incluir tanto da vida como pude num formato de 78 cartas!

 

TN: Reparei que a carta do Sol é uma roda com cores. A carta do Sol é particularmente significativa para si? Que outras cartas são mais significativas e porquê?

 

AG: Sabem que o título original para este baralho era “The Color Wheel Tarot” (em oposição ao nome que a editora lhe deu). A roda é um símbolo da minha profunda relação com o ciclo das estações e com o ciclo da vida. Sendo uma fã convicta dos “Grateful Dead”, “The Wheel” era a minha música favorita de Jerry Garcia por a letra da música expressar tão bem essa relação.

 

Comecei o meu estudo do “oculto” com Astrologia. No caso da carta do Sol, a roda com cores é um símbolo do modelo astrológico (uso um sistema de cores diferentes da maioria dos astrólogos, o que explico no meu livro). Quando chegou a altura de escolher um nome mágico, como artista e astrológa, “Color Wheel” pareceu-me a escolha natural e portanto a roda com cores tornou-se o meu símbolo pessoal.

 

É a expressão da noção de que cada um de nós é feito de todas as formas e cores contidas no mundo; tudo o que vemos é parte de nós. No caso particular da carta do Sol, pensei que este símbolo expressa a nossa diversidade juntamente com a nossa unidade. A carta não me é particularmente significativa, mais do que qualquer outro Arcano Maior, apesar do rapazinho louro na carta ser o meu filho mais novo Gaelen quando tinha dois anos (tem oito agora!). O símbolo da roda de cores aparece também noutras cartas do “Wheel of Change”: na Roda da Fortuna, a Carroça, o Mundo, o As de Paus e o oito de Paus, as quais chamo de “marca do criador” neste baralho.

 

Alguns dos Arcanos Menores mais significativos para mim pessoalmente são o Às de Paus, que mostra o Maypole. Estou ligada a essa carta porque dançamos sempre ao Maypole no Beltane, neste mundo do Deus da Floresta cujo Maypole honra. È um símbolo de diversidade, nas cores das fitas e mostra como podemos dançar todos juntos a dança da vida.

 

O oito de Paus é-me especial porque mostra a minha própria mesa de trabalho com o trabalho em progresso. O quadro que estou a trabalhar na carta é a roda colorida. Duma certa maneira é um símbolo do meu crescimento pessoal e, por analogia, do esforço que fazemos para nos tornarmos um todo.

 

O cinco de Copas, que mostra cinco búzios vazios num lago, liga-me ao Oceano Pacífico (que fica a três milhas da minha terra). O oceano é a mãe da vida e, nesta carta, vejo a profunda relação entre a água salgada e o sangue. Cinco é o número das experiências das mulheres, visto mostrar as cinco fases da sua vida – nascimento, menarca, mãe, menopausa e morte. No naipe de água, esta carta expressa os meus sentimentos de amor e medo pelo futuro do nosso planeta.

 

TN: Que baralhos usou antes da criação do seu, e quais tiveram a maior influência na criação do seu baralho?

 

AG: Bem, quando comecei só tinha o Waite/Smith (conhecido tradicionalmente por Rider-Waite). Depois dessas adquiri o Thoth e o Motherpeace. Diria que há uma grande dose de Thoth no “Wheel of Change”. Não tanto de Waite, mas alguma. O Motherpeace foi uma influência negativa ao definir o que eu não queria fazer com o multiculturalismo. Mais tarde tive também o “Tarot of the Old Path”. Uma coisa estranha: a carta da Lua é bastante semelhante com a do baralho de Barbara Walters, mas nunca tinha visto essa imagem quando pintei a minha carta. Agora, como fiz parte do Tarot-L por uns tempos, tenho muitos baralhos, mas esses não me influenciaram porque já tinha completado o meu baralho antes de fazer parte (do Tarot-L). Mas na verdade, a maior parte das cartas do “Wheel of Change” surgiram da minha imaginação e da minha compreensão de mitologia e de simbolismo.

 

TN: Ainda usa outros baralhos?

 

AG: Sim, mas não tantas vezes. Uso o “Transformational Tarot” de Arnell Ando, muitas vezes quando estou a lidar com a parte emocional. E por vezes uso também o Blake. Quando uso outros baralhos estou normalmente a fazer leituras onde escolho uma carta de cinco ou seis baralhos diferentes para completar um círculo – tipo uma carta de cada baralho para representar cada naipe. Tenho tendência para usar o meu para as Maiores, o de Arnell para Copas, Blake para Paus e os outros dois variam, conforme a minha disposição (o Waite/Smith serve muitas vezes para Ouros).

 

Um baralho de que gosto bastante e que vou usar muito é o “Giovanni Vachetta” (disponível, mas difícil de encontrar como nova edição; foi originalmente publicado em 1893). As suas linhas a preto e branco são perfeitas para colorir e eu colori e laminei um conjunto a que chamo “Alexandra Vachetta”, que eu adoro.

 

TN: È uma maneira de fazer um baralho seu, agora criou dois baralhos... obrigado pelo seu tempo. Estamos à espera que o seu baralho fique disponível... e fora de Hong-Kong!

 

Entrevista por Dianne Wilkes

Publicado em inglês em www.tarotpassages.com      

Frase

"Não sei se os astros mandam neste mundo,
Nem se as cartas -
As de jogar ou as do Tarot -
Podem revelar qualquer coisa.

Não sei se deitando dados
Se chega a qualquer conclusão.
Mas também não sei
Se vivendo como o comum dos homens
Se atinge qualquer coisa.

Sim, não sei"


Álvaro de Campos

Publicidade


Informações